Atrofia-me a forma como muitas pessoas encaram a vida, por vezes parecem formigas a desempenharem uma função, sem pararem para pensar no que é viver. Para mim viver não se reduz a andar por ai. Viver é muito mais, viver é sentir a intensidade avassaladora de cada toque, de cada visão, de cada audição, de cada sentimento e emoção. É apreciar e sentir cada movimento, som, cor e luz do que está dentro de nós e à nossa volta, é estar num campo verde e notar a textura da relva, é estar atento ao baloiçar das árvores sob a força do vento, é fechar os olhos e sentir o prazer do toque quente e apaziguador do sol na pele, é deixar o som da orquestra de pássaros e leves brisas dominarem a planície do nosso pensamento. É simplesmente dar valor a cada pequeno momento, desde o acordar até ao abraçar do leito da noite. É olhar para um céu nocturno recheado de estrelas e ficar abismado pela magia invisível que nos percorre.
Viver é embriagante, é uma intensidade que me deixa confuso com tudo o que quero ver, tudo o que quero sentir, todos os lugares onde quero ir, todas as pessoas que quero conhecer e com que quero estar, todo e cada simples passo que quero dar. Chego a ficar triste por a vida ser demasiado curta para apreciar até à mínima gota de pormenor o lago da vida do qual tenho tanta sede.
Viver é sentir o calor dos semelhantes a nós, dos elementos errantes a que chamamos pessoas. É querer conhecer, é dar atenção a cada partilha de experiências, de personalidades, de sorrisos, e mesmo de chorares. Cada pessoa é tão única, tão especial, e é tão bom sentir o esboçar de um sorriso, o fluir do que uma pessoa nos quer transmitir quando fala connosco, até mesmo a sensação de poder ajudar alguém que está menos bem. É tão fascinante observar os diferentes traços expressivos de cada pessoa, a forma como se movimentam, como falam, como agem, o que têm para transmitir e as almas que têm. Eu adoro pessoas, só não gosto das que vejo como más para as outras, mas essas eu desprezo.
Não entendo como se perde a atenção para tais coisas, não entendo como se perde o valor delas. Não entendo a existência da espada afiada da depressão e da melancolia que nos tentam cortar as ligações à corrente luminosa da vida, mesmo quando as estou a sentir. Talvez por isso me provoquem tanta dor, porque não as compreendo, e eu odeio dor..., e fujo dela..., "tu e toda a gente" me diriam..., mas eu vejo pessoas que ficam viciadas na dor..., e não entendo...Eu não sou cego, nem ingénuo, nem tento pintar um quadro arco-íris do mundo. Eu sei que nem tudo é um mar de rosas, existem coisas más no mundo, horríveis mesmo. Dor, angústia, vidas complicadas, pobreza, pessoas más, violência, e também levamos com elas no nosso percurso...Mas será que é nisto que devemos pensar? Não seria melhor tentar não esquecer todos os pontos maravilhosos da vida de forma a não nos afundarmos nos maus? Às vezes vejo nos olhos de algumas pessoas tanta tristeza que me faz querer expressar-lhes tudo isto de alguma forma. Talvez se todos nos lembrássemos pelo menos de vez em quando da luz que existe na vida conseguíssemos diminuir as sombras que também nela co-existem.